sábado, 20 de fevereiro de 2010

"82 se tudo correr bem... se a vida permitir... se eu lá chegar..."

Custa-me escrever-te as memórias porque desenvolvo rancores incógnitos. E não gosto de me enervar com coisas que não possa esmurrar. Vamos antes inventar um conto de fadas. Elas são as fadas e nós as fixes. Elas vestem-se catitas e têm asinhas, nós também temos roupas giras, mas os pés bem assentes. Vivemos sempre em boas vielas e encontramos muita gente, boa e má, mas só levamos connosco os que querem mesmo-mesmo vir. E também só gostamos destes. Às vezes ouvimos músicas em repeat como se não houvesse amanhã. Estamos sempre juntas, eu danço coisas malucas para ti e tu esforças-te por não rir enquanto me repreendes. Tu não hesitas em ligar-me sempre que precisas da minha voz, em vez de ficares a pensar como seria bom se eu estivesse ali. Abominamos gentalha que nos rouba os táxis e nos esfrega malaguetas na roupa a secar (empanturradas de inveja, as gordas!), mas nem nos damos o trabalho de rogar-lhes males. Cantamos Amália, mas apenas fingimos compreender o fado, porque na verdade ele nunca nos doeu nesse sentido. De vez em quando adormecemos e sonhamos coisas bonitas, e um dia destes ele bate-nos à porta. Os cavalos brancos estão fora de moda mas as orquídeas não, e os one-77 ainda menos. Não vivemos felizes para sempre porque isso não existe (todos os meses têm um ou dois dias maus), mas somos felizes com aquilo que temos e entregamo-nos à vida e ao amor como ninguém, e aqueles que nos esqueceram não nos fazem falta.

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